Robótica

Cirurgia robótica no Brasil: dados, SUS, ANS e automação hospitalar

Cirurgia robótica no Brasil: cerca de 200 plataformas, prostatectomia robótica no SUS e no Rol da ANS desde 2026 e robôs em farmácias e logística hospitalar.

O Brasil tinha cerca de 200 plataformas de cirurgia robótica instaladas em 2025, das quais aproximadamente 160 eram sistemas Da Vinci, da Intuitive Surgical, segundo levantamento publicado pelo portal Engenharia Biomédica. Com esse parque, o país é o maior mercado da América Latina e responde por metade da cirurgia robótica da região. Duas decisões regulatórias recentes mudaram a escala possível desse mercado: a incorporação da prostatectomia radical assistida por robô ao SUS, formalizada em 2025, e sua entrada no Rol de Procedimentos da ANS, com cobertura obrigatória pelos planos de saúde desde 1º de abril de 2026.

Quanto a cirurgia robótica cresceu no país

A primeira cirurgia robótica no Brasil foi realizada em 2008. Na primeira década, o volume acumulado foi de cerca de 17 mil procedimentos. Entre 2018 e 2022, somente nesse intervalo de cinco anos, foram cerca de 88 mil, o que corresponde a um crescimento de 417% no período de 2009 a 2022, conforme o mesmo levantamento.

A distribuição é concentrada em grandes grupos privados e hospitais de referência:

InstituiçãoDado divulgado
Hospital Israelita Albert Einstein10 plataformas e mais de 11 mil cirurgias realizadas
Rede D'Or São Luiz23 robôs, com investimento de R$ 200 milhões
BP (Beneficência Portuguesa de São Paulo)Investimento de R$ 25 milhões para triplicar a capacidade de procedimentos robóticos
Rede pública (SUS)40 plataformas em operação, concentradas no Sul e no Sudeste

As especialidades que mais usam as plataformas são urologia, ginecologia, coloproctologia e cirurgia geral. Nos hospitais públicos, predominam as indicações oncológicas urológicas e ginecológicas.

A decisão da Conitec e a oferta no SUS

Em agosto de 2025, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) publicou o Relatório de Recomendação nº 1030, com parecer favorável à prostatectomia radical assistida por robô para o tratamento do câncer de próstata localizado ou localmente avançado. A decisão foi formalizada pela Portaria SECTICS/MS nº 72/2025.

A portaria deu às áreas técnicas do Ministério da Saúde prazo máximo de 180 dias para tornar a oferta efetiva. Na prática, o procedimento passa a ser feito gratuitamente, conforme indicação médica, em centros de referência que já têm a estrutura robótica. A Agência Brasil noticiou a decisão em outubro de 2025.

Dois pontos pesaram na recomendação, segundo a ANS: o avanço das evidências científicas e a existência de infraestrutura já instalada na rede pública, as 40 plataformas citadas acima. A consequência direta é que o acesso depende da localização desses equipamentos. Não existe cobertura nacional uniforme para todos os procedimentos robóticos no SUS, e a oferta varia conforme o hospital e a política de cada estado.

O que mudou na saúde suplementar

A ANS aprovou a inclusão da prostatectomia radical assistida por robô no Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde. Foi a primeira cirurgia robótica a ter cobertura obrigatória pelos planos de saúde no país, com vigência a partir de 1º de abril de 2026.

A inclusão vale para uma indicação específica. Outros procedimentos robóticos continuam fora do rol e, portanto, dependem de negociação entre operadora, hospital e paciente, ou de discussão judicial. Para hospitais privados, a regra cria uma demanda previsível para um procedimento de alto volume em urologia, o que ajuda a calcular a ocupação das plataformas.

Os números mundiais de robôs médicos

O relatório World Robotics 2025, da International Federation of Robotics (IFR), publicado em outubro de 2025, traz os dados mais recentes sobre robôs médicos. Em 2024, as vendas mundiais chegaram a cerca de 16.700 unidades, alta de 91% sobre 2023.

Dentro da categoria, o comportamento foi desigual:

  • robôs cirúrgicos: demanda 41% maior;
  • robôs de reabilitação e terapia não invasiva: alta de 106%;
  • robôs de diagnóstico e análise laboratorial: alta de 610%, partindo de uma base pequena.

A IFR atribui parte da demanda ao envelhecimento da população e à falta de profissionais, dois fatores também presentes no Brasil.

Automação hospitalar além do centro cirúrgico

A maior parte da automação em hospitais brasileiros não está na sala de cirurgia. Está na farmácia, no almoxarifado e no transporte interno de materiais.

Farmácia e almoxarifado

O Hospital Alemão Oswaldo Cruz concluiu em janeiro de 2025 a implantação do robô BD Rowa, da empresa norte-americana BD, em seu almoxarifado. Segundo o hospital, foi a primeira instalação desse sistema no setor hospitalar brasileiro. Os resultados divulgados:

  • redução de 90% no tempo de separação de medicamentos;
  • cada item separado em cerca de sete segundos;
  • separação de 100 unidades em menos de uma hora, contra até duas horas antes;
  • capacidade de processamento diário até 75% maior;
  • capacidade de armazenamento de até 15 mil unidades, com rastreabilidade completa.

Einstein e Sírio-Libanês, em São Paulo, também operam farmácias com processos robotizados que separam frascos e comprimidos em doses individuais. A dose chega ao leito em envelope fechado, identificado com o nome do paciente, a descrição do medicamento e a dosagem.

No SUS, o Hospital da Mulher, o Hospital Regional de São José dos Campos e o Hospital Regional de Sorocaba, no estado de São Paulo, passaram a operar farmácias robotizadas que separam doses e as enviam diretamente aos postos de enfermagem, tecnologia descrita pela imprensa regional como inédita na rede pública.

Transporte interno

No Einstein, uma parceria coordenada pela Eretz.bio, a incubadora do hospital, levou os robôs da startup brasileira Alabia a entregar medicamentos. Os robôs circulam pelo centro dos corredores para evitar objetos encostados nas paredes e se comunicam com os elevadores por internet das coisas, chamando o elevador e indicando o andar de destino.

Esse tipo de aplicação libera tempo da equipe de enfermagem e reduz o risco de extravio e contaminação no transporte de medicamentos, insumos e amostras laboratoriais.

Critérios para um hospital avaliar um programa robótico

A decisão de compra de uma plataforma cirúrgica ou de um sistema de automação de farmácia envolve cálculos distintos. Alguns critérios são comuns aos dois.

  1. Volume previsto. A plataforma cirúrgica só se paga com agenda ocupada. A inclusão da prostatectomia no SUS e no Rol da ANS dá uma base mínima de demanda em urologia, mas o plano precisa considerar ginecologia, coloproctologia e cirurgia geral.
  2. Fonte de remuneração. Verifique quais procedimentos têm cobertura no SUS, quais estão no Rol da ANS e quais dependem de negociação caso a caso com operadoras.
  3. Formação da equipe. Cirurgiões, anestesistas e enfermagem precisam de treinamento e de curva de aprendizado supervisionada. Os centros com maior volume no país são justamente os que investiram em programas de formação.
  4. Integração com sistemas. Robôs de farmácia e de logística dependem de integração com o prontuário eletrônico, a prescrição, o controle de estoque e, no caso do transporte, com elevadores e portas.
  5. Indicadores de antes e depois. O caso do Oswaldo Cruz mostra o tipo de métrica útil: tempo por item separado, capacidade diária e rastreabilidade. Meça antes de instalar.
  6. Manutenção e contrato. Custos de insumos, instrumental de uso limitado e contratos de assistência técnica pesam tanto quanto o preço do equipamento.

Erros comuns

  • Comprar a plataforma sem plano de ocupação por especialidade.
  • Tratar a automação da farmácia como projeto de TI isolado, sem revisar o fluxo de dispensação e o papel da enfermagem.
  • Não definir quem responde pelos dados gerados (rastreabilidade de lotes, registros de dose), que também estão sujeitos à LGPD.
  • Subestimar o tempo de adaptação física: corredores, elevadores e salas precisam comportar robôs móveis.

Questões para gestores da rede pública

Para secretarias estaduais e municipais de saúde, a incorporação ao SUS muda a pergunta. Deixa de ser se a rede pública deve oferecer cirurgia robótica e passa a ser como organizar o acesso a um procedimento já incorporado. Algumas decisões práticas:

  • mapear quais hospitais sob sua gestão, ou conveniados, têm plataforma instalada e equipe habilitada;
  • definir fluxos de regulação para que pacientes de regiões sem plataforma sejam encaminhados aos centros de referência, com transporte e hospedagem previstos quando necessário;
  • acompanhar a fila de pacientes com câncer de próstata localizado e medir o tempo entre diagnóstico e cirurgia, antes e depois da oferta;
  • avaliar parcerias com hospitais filantrópicos e universitários que já operam plataformas, em vez de iniciar do zero uma nova aquisição;
  • incluir nos contratos de compra ou locação cláusulas sobre insumos, instrumental, manutenção e treinamento, que determinam o custo real por procedimento.

Na automação de farmácia, a experiência dos três hospitais estaduais paulistas é o parâmetro mais próximo para a rede pública. O dado a pedir a qualquer fornecedor é o mesmo usado pelo Oswaldo Cruz: tempo de separação por item e capacidade diária, medidos antes e depois.

O que monitorar nos próximos meses

O prazo de 180 dias da Portaria SECTICS/MS nº 72/2025 já venceu, e o ponto a acompanhar agora é a efetiva distribuição da oferta pelos estados, dado que as 40 plataformas públicas estão concentradas no Sul e no Sudeste. Na saúde suplementar, a primeira experiência de cobertura obrigatória, vigente desde abril de 2026, tende a servir de referência para futuras propostas de incorporação de outros procedimentos robóticos ao Rol. No mercado mundial, a próxima edição do World Robotics de robôs de serviço deve indicar se o ritmo de crescimento de robôs médicos observado em 2024 se manteve.

Fontes

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