Escolas Conectadas: metas, números e prazos da Enec em 2026
Escolas Conectadas em números: 78,7% das 138 mil escolas públicas estavam nos parâmetros da Enec em julho de 2026. Metas, recursos e o que falta.
A Estratégia Nacional de Escolas Conectadas (Enec) tem uma meta objetiva: universalizar, até 2026, a internet de qualidade para uso pedagógico nas cerca de 138 mil escolas públicas de educação básica do país. Na atualização mais recente do painel do Ministério da Educação (MEC), divulgada em 2 de setembro de 2026 com dados até julho, 108.658 escolas estavam dentro dos parâmetros adequados, o que corresponde a 78,7% das 138.086 unidades monitoradas. Restam, portanto, 29.428 escolas fora do padrão a poucos meses do fim do prazo.
O que é a Enec e como foi instituída
A Enec foi criada pelo Decreto nº 11.713, de 26 de setembro de 2023. O texto organiza um esforço do governo federal, em colaboração com os sistemas de ensino, para garantir conectividade com finalidade pedagógica e apoiar a compra e a melhoria de dispositivos e equipamentos em todas as escolas públicas de educação básica.
No lançamento, o Ministério das Comunicações informou que a política alcançaria 138,3 mil instituições até 2026. A coordenação envolve MEC e Ministério das Comunicações, com participação da Anatel na gestão dos recursos vindos do leilão do 5G.
A estratégia se divide em quatro eixos de conectividade:
- implantação de infraestrutura de rede para acesso à internet em alta velocidade;
- oferta de acesso à internet com velocidade adequada;
- instalação de redes Wi-Fi nas escolas;
- fornecimento de energia elétrica.
A inclusão da energia elétrica como eixo próprio é relevante para quem planeja projetos em áreas remotas. Sem alimentação estável, nenhum link ou ponto de acesso funciona de forma contínua.
Adesão de estados e municípios
A adesão foi rápida. Em janeiro de 2024, a Agência Gov informou que os 27 estados haviam aderido à Enec. Na rede municipal, a adesão chegou a cerca de 5.131 municípios, o equivalente a 92,15% do total. Para as secretarias, aderir significa assumir o compromisso de informar dados de conectividade e seguir os parâmetros federais nas contratações.
Quanto dinheiro está previsto
O MEC anunciou investimento total de R$ 8,8 bilhões para universalizar a conectividade das escolas públicas até 2026. A composição informada no lançamento é a seguinte:
| Fonte | Valor previsto |
|---|---|
| Novo PAC (eixo de conectividade) | R$ 6,5 bilhões |
| Lei nº 14.172/2021 | R$ 1,7 bilhão |
| Política de Inovação Educação Conectada (PIEC) | R$ 350 milhões |
| Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) | R$ 250 milhões |
| Total | R$ 8,8 bilhões |
A esses valores soma-se uma fonte com regras próprias: os compromissos assumidos no leilão do 5G. As vencedoras da faixa de 26 GHz se comprometeram a destinar R$ 3,1 bilhões à conexão de escolas públicas. A aplicação desse dinheiro é acompanhada pelo Grupo de Acompanhamento do Custeio a Projetos de Conectividade de Escolas (Gape), vinculado à Anatel.
Os recursos do 5G e o Gape
O desenho original do Gape previa conectar pouco mais de 7,5 mil escolas com os R$ 3,1 bilhões. O governo depois propôs ampliar o alcance para todas as unidades sem acesso por fibra, satélite ou rádio que pudessem ser melhoradas. O cálculo chegou a 40.057 escolas nessa situação: 28.511 poderiam receber fibra e 11.546 teriam internet de alta velocidade por satélite.
A distribuição regional dessas escolas mostra onde está o maior esforço:
| Região | Escolas a conectar |
|---|---|
| Nordeste | 19.927 |
| Norte | 11.531 |
| Sudeste | 5.244 |
| Sul | 2.397 |
| Centro-Oeste | 958 |
Em fevereiro de 2024, o Gape aprovou as fases 2 e 3 do programa, com R$ 654 milhões reservados para atender 5,3 mil unidades em dois anos. Das 5,3 mil escolas, 4,6 mil seriam atendidas por satélite. O peso do satélite nessas fases indica o perfil das escolas restantes: pequenas, rurais e distantes de redes terrestres.
Parâmetros: o que conta como "escola conectada"
Em março de 2024, o MEC divulgou os parâmetros de conectividade da Enec, publicados na Resolução nº 2/2024 do comitê da estratégia. Eles definem velocidades mínimas de download e servem de referência para secretarias estaduais e municipais e para as próprias escolas na contratação de internet.
| Situação da escola | Velocidade mínima de download recomendada |
|---|---|
| Rede terrestre, até 50 alunos no turno mais movimentado (ou educação infantil com até 50 profissionais) | 50 Mbps |
| Rede terrestre, de 50 a 1.000 alunos no turno mais movimentado | 1 Mbps por aluno no turno de maior movimento |
| Conexão via satélite | 20 Mbps |
O Indicador Escolas Conectadas, usado no monitoramento, combina a velocidade mínima de 1 Mbps por estudante no maior turno com a existência de rede Wi-Fi que cubra os espaços pedagógicos. O indicador classifica as escolas em níveis, e apenas as que estão nos níveis 4 e 5 são contadas como conectadas dentro dos parâmetros adequados.
Esse critério é mais exigente do que a simples existência de um link. Uma escola com 600 alunos no turno da manhã precisa de 600 Mbps de download para atingir a referência. Um contrato de 100 Mbps, comum em redes municipais, deixa a unidade fora da meta mesmo que a internet "funcione".
Evolução dos números de 2023 a 2026
A série disponível permite acompanhar o avanço desde o lançamento:
| Momento | Escolas nos parâmetros adequados | Fonte |
|---|---|---|
| Setembro de 2025 (dois anos da Enec) | 65,4% da rede pública | Agência Gov |
| Balanço de 2025 do programa | 68,7% com internet adequada para uso pedagógico | MCom e MEC, via Radioagência Nacional |
| Julho de 2026 | 78,7% (108.658 de 138.086) | Painel de monitoramento do MEC |
Nos dados de 2025 da Enec, 94.584 escolas (68,6%) tinham velocidade mínima de 1 Mbps por aluno e 93.896 (68,1%) possuíam Wi-Fi com cobertura pedagógica total. Em setembro de 2025, ao completar dois anos, o MEC lançou o painel de monitoramento público da estratégia.
Na atualização de julho de 2026, os dois componentes do indicador avançaram de forma parecida: 79,7% das escolas tinham velocidade considerada adequada e 80,7% contavam com cobertura Wi-Fi dentro dos parâmetros. Quase todas as escolas monitoradas apresentavam condições adequadas de energia elétrica. A coleta foi feita entre abril e maio de 2026, junto às redes de ensino pelo Sistema Integrado de Monitoramento e Controle (Simec) e junto às escolas pelo PDDE Interativo.
Em pouco menos de um ano, entre setembro de 2025 e julho de 2026, o percentual de escolas adequadas subiu cerca de 13 pontos percentuais. Para cumprir a universalização em 2026, o ritmo teria de acelerar de forma expressiva nos últimos meses do ano.
Onde está a dificuldade
Antes da consolidação do painel do MEC, um levantamento do Centro de Estudos e Pesquisas em Tecnologia de Redes e Operações (Ceptro.br), do NIC.br, divulgado em 2024 com o título "Panorama da qualidade da Internet nas escolas públicas brasileiras", mostrou o tamanho da distância em relação à nova meta. Das 32 mil escolas com mais de 50 estudantes no maior turno monitoradas pelo Medidor Educação Conectada, apenas 3.640 tinham velocidade adequada.
O mesmo estudo apontou que nenhum estado alcançava 1 Mbps por aluno. Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Goiás tinham os melhores resultados, em torno de 0,5 Mbps por estudante. Amazonas, Acre e Amapá ficavam perto de 0,1 Mbps por aluno. Das 137.208 escolas estaduais e municipais consideradas, 89% estavam conectadas à rede, mas só 62% declaravam ter internet para o processo de ensino e aprendizagem.
Três pontos explicam boa parte do problema:
- Escolas grandes precisam de links proporcionais ao número de alunos, e a contratação municipal costuma seguir planos de banda fixa.
- Escolas pequenas e rurais dependem de satélite ou de rádio, com custo recorrente elevado por unidade.
- A rede interna (cabeamento, pontos de acesso Wi-Fi e energia) exige obra e manutenção, e não se resolve só com a troca do link.
Checklist para secretarias e fornecedores
Para gestores municipais e estaduais que ainda têm escolas fora dos níveis 4 e 5, e para empresas que atendem essas redes, os passos abaixo seguem diretamente os parâmetros e a metodologia da Enec:
- Consultar o painel de monitoramento do MEC e listar as escolas da rede fora dos níveis 4 e 5, separando as que falham em velocidade das que falham em Wi-Fi.
- Calcular a banda necessária de cada escola pelo número de alunos no turno mais movimentado, aplicando os patamares da Resolução nº 2/2024 (50 Mbps, 1 Mbps por aluno ou 20 Mbps para satélite).
- Revisar contratos de internet vigentes e comparar a velocidade contratada com a exigida. Contratos novos devem citar os parâmetros da Enec no termo de referência.
- Levantar a cobertura Wi-Fi por ambiente pedagógico (salas de aula, biblioteca, laboratórios), e não apenas na secretaria da escola.
- Verificar a situação de energia elétrica antes de instalar equipamentos, sobretudo em escolas rurais.
- Instalar e manter ativo o Medidor Educação Conectada nas escolas, para que a velocidade real seja registrada e não apenas a contratada.
- Manter atualizados os dados no Simec e no PDDE Interativo, que alimentam as rodadas de monitoramento.
- Checar se as escolas da rede estão entre as atendidas pelas fases do Gape, para evitar contratação duplicada com recursos próprios.
Erros comuns nas contratações
Contratar banda sem considerar o número de alunos é o erro mais frequente. O parâmetro da Enec é proporcional, e uma escola de 800 alunos com link de 200 Mbps continua fora da meta.
Outro problema recorrente é tratar Wi-Fi como item secundário. O indicador exige cobertura nos espaços pedagógicos, e um único roteador na sala da direção não atende o critério.
Também há redes que não alimentam os sistemas de monitoramento. Como a classificação depende dos dados enviados pelo Simec, pelo PDDE Interativo e pelas medições, escolas com boa conexão podem aparecer como inadequadas por falta de informação.
O que monitorar até o fim de 2026
O prazo de universalização termina em 2026. Os próximos pontos de atenção para gestores e fornecedores são as novas atualizações do painel do MEC, a execução das fases do Gape com recursos do leilão do 5G e a aplicação dos R$ 6,5 bilhões do Novo PAC no eixo de conectividade. Com 29.428 escolas ainda fora dos parâmetros em julho de 2026, concentradas em perfis de difícil atendimento, é provável que parte do esforço se estenda além do prazo original, o que deve ser acompanhado nos próximos balanços oficiais.
Fontes
- Decreto nº 11.713, de 26 de setembro de 2023, Planalto, 2023
- Governo Federal lança Estratégia Nacional de Escolas Conectadas para levar internet a mais de 138 mil instituições até 2026, Ministério das Comunicações, 2023
- Todos os estados brasileiros aderiram à Estratégia Nacional de Escolas Conectadas, Agência Gov, 2024
- MEC divulga parâmetros de conectividade da Enec, Ministério da Educação, 2024
- Em dois anos, projeto Escolas Conectadas leva internet a 65,4% da rede pública, Agência Gov, 2025
- Relatório Executivo 2025 da Enec, Ministério da Educação, 2025
- 80% das escolas públicas estão conectadas com wi-fi e velocidade adequada, aponta levantamento, Agência Gov, 2026
- Conexão de escolas com recursos do 5G tem duas novas fases aprovadas, Teletime, 2024
- Governo quer mais escolas conectadas com recursos do 5G, Telesíntese
- Levantamento sobre qualidade da Internet em escolas públicas aponta desafios para atingir nova meta de conectividade do MEC, NIC.br, 2024