GovTech

Tecnologia Digital no Setor Público: Transformando Governos

Tecnologia digital no setor público em números: IA, IoT e serviços online nos órgãos brasileiros segundo Cetic.br, ONU e Banco Mundial (dados 2023 a 2026).

A tecnologia digital no setor público brasileiro já saiu da fase de portais informativos. A pesquisa TIC Governo 2025, divulgada pelo Cetic.br em 23 de julho de 2026, mostra que 59% dos órgãos públicos federais e estaduais usam inteligência artificial, e que 27% das prefeituras já adotam a tecnologia. No índice de maturidade digital do Banco Mundial, o Brasil marcou 0,977 em 2025 e segue no grupo mais avançado. Os números, porém, escondem diferenças grandes entre esferas de governo e tamanhos de município.

Onde o Brasil está nos rankings internacionais

Dois índices globais servem de referência para comparar o Brasil com outros países.

O primeiro é o GovTech Maturity Index (GTMI), do Banco Mundial. A edição de 2025 avaliou 197 economias e as distribuiu em quatro grupos: A (maturidade extensa), B (significativa), C (média) e D (baixa). O Brasil obteve 0,977, acima dos 0,975 de 2023, e permaneceu entre as 80 economias do grupo A.

O segundo é o E-Government Development Index (EGDI), calculado pelo Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU (UN DESA) para os Estados-membros. O EGDI é a média ponderada de três subíndices: serviços online (OSI), infraestrutura de telecomunicações (TII) e capital humano. Na pesquisa de 2024, o Brasil passou a integrar o grupo de desenvolvimento muito alto. A liderança ficou com Dinamarca, Estônia e Singapura, segundo a ONU News.

ÍndiceOrganizaçãoEdiçãoResultado do Brasil
GovTech Maturity IndexBanco Mundial20250,977, grupo A (80 economias no grupo)
GovTech Maturity IndexBanco Mundial20230,975
E-Government Development IndexONU (UN DESA)2024Grupo de desenvolvimento muito alto

Os dois índices medem sobretudo a oferta federal. A realidade de estados e, principalmente, municípios aparece melhor nas pesquisas do Cetic.br.

Inteligência artificial nos órgãos públicos

A TIC Governo 2025 é a principal fonte sobre adoção de tecnologias emergentes na administração brasileira. O quadro por Poder mostra distância grande entre Judiciário e Executivo.

Poder ou esferaÓrgãos que usam IA (2025)
Judiciário94%
Ministério Público92%
Legislativo83%
Executivo55%
Órgãos federais (todos os Poderes)70%
Órgãos estaduais (todos os Poderes)58%

Nas prefeituras, a edição de 2025 mediu IA pela primeira vez. O resultado geral foi de 27%, com forte variação por porte: 85% nas cidades com mais de 500 mil habitantes, 81% nas capitais e 22% nos municípios com até 10 mil habitantes. Os usos mais citados pelas administrações municipais foram automatização de processos (14%) e mineração de texto (12%).

A principal barreira apontada é a falta de capacitação: 19% dos órgãos federais, 21% dos estaduais e 40% das prefeituras citaram esse obstáculo. O dado sugere que, para a maior parte dos municípios, o gargalo está menos na compra de tecnologia e mais em equipes capazes de especificar, contratar e operar soluções.

Internet das coisas e cidades inteligentes

A internet das coisas (IoT) está menos disseminada que a IA. Em 2025, a TIC Governo registrou uso em 20% dos órgãos federais e 29% dos estaduais.

A política pública de referência é o Plano Nacional de Internet das Coisas, instituído pelo Decreto nº 9.854, de 25 de junho de 2019, e elaborado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação em parceria com o BNDES. O plano tem entre seus objetivos melhorar a qualidade de vida e gerar ganhos de eficiência nos serviços por meio de soluções de IoT, com observância das diretrizes de segurança da informação e proteção de dados pessoais.

No nível municipal, a porta de entrada mais comum para IoT tem sido a iluminação pública. A troca de luminárias por LED abre espaço para a telegestão, que permite acionamento programado e identificação remota de falhas. Os modelos de concessão estruturados pelo BNDES, como o de Teresina, incluem sistema de telegestão e centro de controle operacional. Em junho de 2026, o TELETIME contabilizou mais de 830 municípios com projetos de concessão de iluminação pública e cidades inteligentes em desenvolvimento no modelo de parceria público-privada.

Uma vez instalada, a rede de iluminação com telegestão pode receber sensores ambientais, monitoramento de tráfego e videomonitoramento. A decisão sobre quais serviços agregar precisa constar do contrato de PPP desde o início, porque aditivos posteriores costumam ser lentos e caros.

Serviços digitais ao cidadão

A frente mais visível da transformação digital é a oferta de serviços online. No plano federal, o GOV.BR concentra o catálogo: em maio de 2026, o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI) informou que 74% dos cerca de 4,9 mil serviços estavam totalmente digitalizados, e que mais de 2.700 municípios haviam aderido à Rede GOV.BR, com acesso a login, assinatura eletrônica e Prova de Vida Digital.

Nos municípios, a TIC Governo Eletrônico 2023 traçou o retrato mais detalhado disponível.

Serviço online oferecido pelas prefeituras20132023
Ao menos um serviço online75%91%
Emissão de nota fiscal eletrônica38%83%
Emissão de guias de pagamento de tributos25%70%
Download de documentos ou formuláriosnão informado89%
Agendamento de consultas e atendimentosnão informado33%

O padrão é claro: a digitalização municipal avançou primeiro nos serviços ligados à arrecadação. Agendamento, que exige integração com agendas de unidades de saúde e de atendimento, ficou para trás. A diferença por porte também pesa: 94% das prefeituras de cidades com mais de 500 mil habitantes ofereciam cinco ou mais tipos de serviço online em 2023, contra 56% nas cidades com até 10 mil habitantes. Quanto à autenticação, 49% das prefeituras exigiam login ou cadastro para algum serviço online.

Diferenças entre esferas e portes

Os dados do Cetic.br mostram dois recortes que devem orientar qualquer política de transformação digital. O primeiro é o porte do município. Em IA, a distância entre cidades com mais de 500 mil habitantes (85%) e municípios com até 10 mil habitantes (22%) é de 63 pontos percentuais. Em serviços online, a diferença entre os mesmos grupos na oferta de cinco ou mais tipos de serviço foi de 38 pontos em 2023.

O segundo recorte é o Poder. O Executivo, responsável pela maior parte dos serviços prestados diretamente ao cidadão, tem a menor taxa de adoção de IA entre os Poderes (55%), abaixo do Judiciário (94%) e do Ministério Público (92%). Uma explicação plausível é a escala: tribunais lidam com grande volume de documentos padronizados, terreno favorável à mineração de texto e à automação.

Como as três frentes se conectam

IoT, dados e serviços digitais costumam ser tratados como projetos separados, com orçamentos e secretarias distintos. O ganho de gestão aparece quando se conectam.

Um exemplo típico: sensores de uma rede de iluminação com telegestão registram falhas automaticamente; o sistema abre a ordem de serviço sem depender de reclamação do cidadão; o cidadão, quando reclama, faz isso pelo aplicativo autenticado com a conta GOV.BR; e os dados de tempo de atendimento são publicados em formato aberto. Cada elemento já existe no Brasil. O que falta, na maioria dos municípios, é a integração entre eles, e a pesquisa do Cetic.br sugere que a principal limitação é de pessoas qualificadas, e não de ferramentas.

Critérios para priorizar investimentos

Com orçamento limitado, gestores precisam escolher onde começar. Os critérios abaixo ajudam a ordenar a carteira de projetos.

  1. Volume de atendimento. Serviços com mais atendimentos presenciais geram retorno mais rápido quando digitalizados.
  2. Dependência de integração. Projetos que exigem integrar muitas bases (saúde, assistência social) devem vir depois de resolver identificação única e interoperabilidade.
  3. Ferramentas gratuitas disponíveis. A adesão à Rede GOV.BR elimina a necessidade de contratar autenticação e assinatura eletrônica próprias.
  4. Modelo de financiamento. Projetos de IoT com receita ou economia associada, como a iluminação pública, podem ser estruturados como concessão, com apoio técnico do BNDES e da Caixa.
  5. Capacidade interna. Antes de contratar IA, avaliar se há servidores capazes de definir o problema, acompanhar o contrato e validar resultados. A barreira de capacitação citada por 40% das prefeituras em 2025 indica que esse item costuma ser subestimado.
  6. Proteção de dados. Qualquer solução que trate dados pessoais precisa de avaliação prévia de conformidade.

Erros frequentes

  • comprar plataformas de cidade inteligente sem definir antes quais problemas elas devem resolver e quais indicadores vão medir o resultado;
  • contratar sensores sem prever quem vai analisar os dados e agir sobre eles;
  • manter cadastro próprio de usuários em cada sistema, em vez de usar a autenticação GOV.BR;
  • medir sucesso pelo número de serviços publicados, e não pelo percentual de atendimentos que migrou para o canal digital;
  • tratar IA como projeto de TI isolado, sem envolver a área de negócio que conhece o processo.

O que monitorar nos próximos ciclos

Os indicadores a acompanhar estão todos em fontes públicas e periódicas. A próxima edição da TIC Governo, do Cetic.br, mostrará se a adoção de IA nas prefeituras sai dos 27% registrados em 2025 e se a barreira de capacitação diminui. A atualização do GTMI indicará se o Brasil mantém a pontuação acima de 0,97. A próxima pesquisa de governo eletrônico da ONU dirá se o país consolida a posição no grupo de desenvolvimento muito alto. No plano doméstico, o MGI divulga periodicamente a adesão à Rede GOV.BR e o grau de digitalização do catálogo federal, que em maio de 2026 estava em 74%.

Fontes

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