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Data centers no Brasil: Redata, energia e investimentos em 2026

Data centers no Brasil: a Lei 15.504/2026 criou o Redata, o país passou de 1 GW de capacidade e os pedidos de conexão à rede somam 26,2 GW. O que muda.

Em 15 de setembro de 2026, o presidente da República sancionou a Lei nº 15.504/2026, que cria o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata). A lei suspende tributos federais na compra de equipamentos para data centers e, em troca, exige energia limpa, eficiência no uso de água e oferta de capacidade ao mercado interno. O regime chega num momento em que o Brasil acaba de ultrapassar 1 gigawatt (GW) de capacidade de TI comissionada, segundo a Associação Brasileira de Data Center (ABDC), enquanto os pedidos de conexão de data centers à rede elétrica somavam 26,2 GW em novembro de 2025, de acordo com a Empresa de Pesquisa Energética (EPE).

Do Redata por medida provisória à Lei 15.504/2026

O Redata foi anunciado em 2025 por meio da Medida Provisória nº 1.318/2025. A MP perdeu a validade em fevereiro de 2026 sem ter sido votada: a comissão mista que deveria analisá-la nem chegou a ser instalada, conforme registrou a Agência Senado. Com a caducidade, os incentivos passaram a depender de projeto de lei.

O texto seguiu como PL 278/2026. Depois de meses parado, foi aprovado pelo Senado em 1º de setembro de 2026 sem mudanças de mérito, o que dispensou nova votação na Câmara e levou o projeto direto à sanção. Junto com a lei, o governo publicou o decreto de regulamentação e a Lei Complementar nº 237/2026, necessária para permitir a concessão dos benefícios fiscais, segundo o Ministério da Fazenda.

Quando lançou o programa em 2025, o governo projetou R$ 2 trilhões em investimentos em dez anos. É uma estimativa oficial de potencial, não um volume contratado.

O que o Redata concede

O benefício central é a suspensão de tributos sobre componentes eletrônicos e outros produtos de tecnologia da informação e comunicação destinados ao ativo imobilizado de data centers habilitados. Cumpridas as condições legais, a suspensão se converte em alíquota zero.

Tributo suspensoAlcance, segundo a Lei 15.504/2026 e análises publicadas
PIS/Pasep e CofinsEfeitos apenas até 31 de dezembro de 2026, por causa da reforma tributária
PIS/Pasep-Importação e Cofins-ImportaçãoMesma limitação temporal da contribuição interna
IPIEfeitos apenas até 31 de dezembro de 2026
Imposto de ImportaçãoSuspensão por cinco anos, só para itens sem produção nacional equivalente

O prazo geral do regime é de cinco anos. A limitação de PIS, Cofins e IPI ao fim de 2026 decorre da substituição desses tributos pelo novo modelo de tributação sobre consumo. Artigo publicado no Conjur em 25 de setembro de 2026 chamou o benefício de PIS/Cofins e IPI de "natimorto", justamente porque a janela até dezembro é curta demais para a maioria dos projetos. Na prática, o Imposto de Importação é o incentivo de maior duração, e vale apenas para equipamentos sem similar nacional.

A habilitação e a co-habilitação ficam a cargo da Secretaria Especial da Receita Federal, e as condições detalhadas dependem de regulamento do Poder Executivo.

As contrapartidas exigidas

A empresa habilitada assume obrigações que vão além do investimento:

  • destinar ao mercado interno ao menos 10% da oferta efetiva de processamento, armazenamento e tratamento de dados;
  • atender a critérios de sustentabilidade que serão definidos em regulamento;
  • suprir toda a demanda de eletricidade com contratos ou autoprodução de fontes limpas ou renováveis, como solar, eólica, hidrelétrica, biomassa ou biogás;
  • apresentar Índice de Eficiência Hídrica para resfriamento de equipamentos igual ou inferior a 0,05 litro de água por kWh;
  • investir no país o equivalente a 2% do valor dos produtos adquiridos no mercado interno ou importados com o benefício.

O limite de 0,05 litro por kWh é exigente. Na prática, ele favorece sistemas de resfriamento em circuito fechado ou a ar e precisa entrar no projeto de engenharia desde a fase de concepção.

Capacidade instalada e investimentos anunciados

A ABDC informou que o Brasil alcançou 1 GW de capacidade de TI comissionada no primeiro trimestre de 2026. A mesma entidade estima que os novos projetos em andamento devem adicionar cerca de 2.000 MW, com investimentos da ordem de US$ 20 bilhões.

A comparação com a fila de conexão à rede elétrica mostra o tamanho da expectativa. Segundo a EPE, os pedidos de acesso de data centers à Rede Básica somavam 26,2 GW em novembro de 2025, enquanto o parque em operação era estimado pelo mercado em menos de 1 GW. Nem todos esses pedidos vão virar obra: muitos são posições de reserva em pontos de conexão disputados.

IndicadorValorFonte e período
Capacidade de TI comissionada1 GWABDC, 1º trimestre de 2026
Capacidade adicional em projetoscerca de 2.000 MWABDC, 2026
Investimento associado a esses projetoscerca de US$ 20 bilhõesABDC, 2026
Pedidos de conexão de data centers à Rede Básica26,2 GWEPE, novembro de 2025
Pedidos de conexão registrados52MME, até junho de 2025

Em junho de 2025, o Ministério de Minas e Energia (MME) contava 52 pedidos de conexão de data centers ao Sistema Interligado Nacional, concentrados em Ceará, Bahia, São Paulo, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Rio Grande do Norte. Entre os projetos de maior porte está o da ByteDance, controladora do TikTok, em Caucaia (CE), na Zona de Processamento de Exportação do Complexo do Pecém, em parceria com a Casa dos Ventos, empresa de energia renovável.

Energia: a vantagem brasileira e o gargalo da transmissão

O argumento energético do Brasil é conhecido. Pelo Balanço Energético Nacional 2026 da EPE (ano-base 2025), as fontes renováveis responderam por 86,8% da matriz elétrica em 2025, e a oferta interna de eletricidade cresceu 20,4 TWh (2,7%) sobre 2024.

O contexto global explica a disputa. O relatório Energy and AI, da Agência Internacional de Energia (IEA), estima que os data centers consumiram cerca de 415 TWh em 2024, perto de 1,5% da eletricidade mundial, e que esse consumo deve dobrar para cerca de 945 TWh em 2030 no cenário-base, pouco menos de 3% do total. Desde 2017, o consumo desses centros cresce em torno de 12% ao ano, mais de quatro vezes a taxa do consumo total. Estados Unidos (45%), China (25%) e Europa (15%) concentravam a demanda em 2024.

O gargalo brasileiro é a transmissão, e não a geração. Uma carga de centenas de megawatts precisa de ponto de conexão com capacidade disponível na Rede Básica. Em dezembro de 2025, o governo instituiu a Política Nacional de Acesso ao Sistema de Transmissão (PNAST), pelo Decreto nº 12.772/2025, em resposta ao crescimento acelerado dos pedidos de acesso, puxado sobretudo por cargas intensivas em energia como data centers. Para quem planeja um projeto, o cronograma de conexão pode pesar mais que o prazo de construção do prédio.

Checklist para empresas que avaliam o Redata

Para operadores e investidores que pretendem se habilitar:

  1. Acompanhe a regulamentação da Receita Federal sobre habilitação e co-habilitação, que define documentos, prazos e forma de comprovação.
  2. Separe no orçamento os equipamentos com similar nacional daqueles sem produção equivalente no país: só estes terão Imposto de Importação suspenso por cinco anos.
  3. Avalie se alguma compra relevante pode ser concluída até 31 de dezembro de 2026, único período com efeito da suspensão de PIS, Cofins e IPI.
  4. Estruture o suprimento de energia desde o início com contratos de fonte renovável ou autoprodução, com rastreabilidade para comprovação.
  5. Projete o sistema de resfriamento para ficar abaixo de 0,05 litro por kWh e defina como a métrica será medida e reportada.
  6. Reserve a oferta mínima de 10% da capacidade ao mercado interno no plano comercial.
  7. Provisione o investimento de 2% sobre o valor dos bens beneficiados no fluxo de caixa do projeto.
  8. Inicie cedo o processo de acesso à rede junto ao Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e à distribuidora ou transmissora local, observando as regras da PNAST.

Para empresas usuárias, que contratam colocation ou nuvem, o efeito é indireto: mais capacidade local tende a reduzir latência e facilitar o cumprimento de exigências de localização de dados, mas preço e prazo de entrega de novos espaços dependem de quantos projetos da fila realmente saírem do papel.

O que monitorar nos próximos meses

O primeiro ponto é o texto final do regulamento de habilitação, que dirá quão pesado será o processo de comprovação das contrapartidas. O segundo é a relação entre pedidos de conexão e obras iniciadas: a distância entre 26,2 GW em fila e 1 GW em operação é o melhor termômetro de quanto do investimento anunciado vai se concretizar. O terceiro é a definição, no âmbito da reforma tributária, de eventual tratamento para o período posterior a 2026, já que a suspensão de PIS, Cofins e IPI não alcança os novos tributos sobre consumo.

Fontes

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