Infraestrutura Digital

Drex e Open Finance: o que vem depois do Pix e o status em 2026

Drex e Open Finance em 2026: o fim da rede blockchain do piloto, o foco em gravames, 208 milhões de consentimentos e a portabilidade de crédito digital.

O Drex, projeto do Banco Central do Brasil (BCB) antes apresentado como o real digital, mudou de rota: em novembro de 2025 o BCB desligou a plataforma blockchain usada no piloto e anunciou que a primeira entrega, prevista para o segundo semestre de 2026, será um sistema sem blockchain para reconciliação de gravames. O Open Finance seguiu caminho oposto e ganhou escala: em 31 de julho de 2026, o ecossistema registrava 208,79 milhões de consentimentos ativos. As duas agendas, somadas ao Pix, formam a infraestrutura com que o BCB pretende aumentar a concorrência e reduzir o custo do crédito.

O que o Drex prometia e o que mudou

O piloto do Drex começou em março de 2023, em ambiente restrito. Dezesseis participantes, entre bancos, cooperativas e consórcios de instituições, conectaram-se a uma rede de registro distribuído (DLT) permissionada baseada em Hyperledger Besu, tecnologia compatível com os contratos inteligentes do Ethereum. A ideia era registrar e transferir ativos de forma programável: tokenizar imóveis, veículos, títulos públicos e operações de crédito, e liquidar essas operações com o real em formato digital.

A segunda fase do piloto selecionou 13 casos de uso, de 42 propostas apresentadas pelos 16 consórcios. Entre os temas testados estavam cessão de recebíveis, crédito com garantia em CDBs e títulos públicos, cédulas de crédito bancário (CCBs) e transações com imóveis e automóveis.

Os testes esbarraram em um problema central: privacidade. Uma rede em que várias instituições validam o mesmo registro precisa impedir que cada participante veja as operações dos concorrentes e os dados dos clientes, exigência do sigilo bancário e da Lei Geral de Proteção de Dados (Lei nº 13.709/2018). As soluções testadas não atenderam a esses requisitos na escala necessária.

Em agosto de 2025, o presidente do BCB, Gabriel Galípolo, afirmou que a tecnologia testada não se mostrou viável e confirmou que a primeira versão do Drex seria lançada em 2026 sem blockchain e sem tokenização. Em reunião com os participantes em 4 de novembro de 2025, o BCB comunicou o desligamento da plataforma a partir de 10 de novembro de 2025 e o início do desenvolvimento de uma nova infraestrutura.

Linha do tempo do Drex

DataEvento
Março de 2023Início do piloto em ambiente restrito, com 16 participantes e rede Hyperledger Besu
2024Segunda fase do piloto, com 13 casos de uso selecionados entre 42 propostas
Agosto de 2025BCB anuncia primeira entrega em 2026, sem blockchain, com foco em gravames
10 de novembro de 2025Desligamento da plataforma usada nas fases 1 e 2
2026Terceira fase, com definição de casos de uso antes da escolha tecnológica
2º semestre de 2026Previsão da primeira entrega: reconciliação de gravames

O que é a reconciliação de gravames

Gravame é o registro jurídico de que um bem foi dado em garantia: alienação fiduciária de um veículo, hipoteca de um imóvel, penhora, garantia sobre títulos. Hoje esses registros ficam espalhados entre bancos, corretoras, registradoras e cartórios. Uma instituição que avalia um pedido de crédito tem dificuldade para confirmar se o mesmo ativo já garante outra operação em outra instituição.

A primeira entrega do Drex pretende conectar essas bases e permitir verificar, liberar e reutilizar ativos como garantia entre instituições diferentes. Segundo o BCB, o uso ficará restrito a instituições financeiras, cartórios e corretoras, sem acesso direto do público. O raciocínio é que uma garantia mais fácil de verificar tende a reduzir o risco para quem empresta e, com isso, o custo do crédito com garantia.

A mudança também inverteu a ordem das decisões. Nas fases 1 e 2, a tecnologia foi definida primeiro e os casos de uso vieram depois. Na fase 3, o BCB declarou que definirá primeiro o problema a resolver e só depois a tecnologia. O uso de DLT e a tokenização ficaram para etapas futuras, sem data.

Open Finance: a infraestrutura que já está em produção

O Open Finance brasileiro tem como base a Resolução Conjunta nº 1, de 4 de maio de 2020, do Conselho Monetário Nacional e do BCB. A implantação ocorreu em quatro fases ao longo de 2021: a primeira, iniciada em fevereiro, tratou apenas de dados públicos das instituições, como canais de atendimento e características de produtos; as seguintes incluíram o compartilhamento de dados de clientes, com consentimento, e os serviços de iniciação de pagamento.

O princípio é simples. O dado bancário pertence ao cliente, que pode autorizar uma instituição a consultar seu histórico em outra, por prazo e finalidade definidos, e pode revogar a autorização a qualquer momento.

Os números de 2026

IndicadorValorData
Consentimentos ativos208,79 milhões31 de julho de 2026
Pessoas físicas na fase de transmissão129,78 milhões13 de agosto de 2026
Pessoas jurídicas na fase de transmissão1,80 milhão13 de agosto de 2026
Pessoas físicas na fase de recepção138,46 milhões13 de agosto de 2026
Pessoas jurídicas na fase de recepção1,95 milhão13 de agosto de 2026
Painel de chamadas de API7,14 bilhões3 de agosto de 2026

Os dados vêm do painel público do ecossistema Open Finance Brasil. Consentimento ativo mede adesão, não uso: um número acima de 200 milhões indica que o compartilhamento foi autorizado, não que resultou em crédito mais barato ou em um novo produto contratado. A diferença entre pessoas físicas e jurídicas também chama atenção: a adesão de empresas é pequena em relação à base de clientes pessoa física.

Onde Pix e Open Finance se encontram

A ligação entre os dois sistemas ficou visível em 2025. As Resoluções BCB nº 406 e nº 407, publicadas em agosto de 2024, regulamentaram a iniciação de transação de pagamento sem redirecionamento no Open Finance, a chamada Jornada Sem Redirecionamento (JSR). Nesse modelo, um iniciador de transação de pagamento (ITP) autorizado executa o Pix com o consentimento prévio do usuário, que não precisa abrir o aplicativo do banco a cada compra.

A JSR é a base do Pix por aproximação, que começou a funcionar em 28 de fevereiro de 2025. O Google Pay, habilitado como ITP desde abril de 2024, foi um dos primeiros a oferecer a funcionalidade, em parceria com Itaú, PicPay e C6. O Pix Automático, lançado em 16 de junho de 2025 para cobranças recorrentes, completa o conjunto de funcionalidades que aproximam o Pix dos casos de uso dos cartões e do débito automático.

Portabilidade de crédito pelo Open Finance

A novidade de maior impacto econômico em 2026 é a portabilidade de crédito dentro do Open Finance. A base legal são a Resolução Conjunta nº 15 e a Resolução CMN nº 5.265, publicadas em novembro de 2025.

O cronograma divulgado pelo BCB prevê:

  1. Fase de testes restritos a partir de novembro de 2025, com 29 instituições participantes.
  2. Lançamento ao público em fevereiro de 2026 para empréstimo pessoal sem garantia e sem consignação.
  3. Testes do crédito consignado de servidores públicos federais em agosto de 2026.
  4. Lançamento do consignado federal ao público em novembro de 2026.

O BCB estima que o prazo para concluir uma portabilidade cairá de até cinco dias úteis para até três dias úteis. Com os dados da dívida compartilhados via Open Finance, a instituição interessada em assumir o contrato consegue fazer a proposta sem que o cliente precise reunir extratos e declarações.

O que empresas e gestores devem fazer agora

As duas agendas afetam de forma diferente cada tipo de organização. Alguns critérios práticos ajudam a priorizar.

  • Instituições que concedem crédito com garantia devem acompanhar as especificações da solução de reconciliação de gravames. A integração exigirá que os sistemas de registro de garantias conversem com a nova infraestrutura.
  • Empresas com grande volume de cobrança recorrente devem avaliar o Pix Automático e a iniciação de pagamento via Open Finance como alternativas ao boleto e ao débito automático tradicional.
  • Varejistas devem testar o Pix por aproximação nos terminais atuais e verificar com a credenciadora se a aceitação já está habilitada.
  • Empresas que tomam crédito podem usar o compartilhamento de dados via Open Finance para negociar taxas com mais de uma instituição. A baixa adesão de pessoas jurídicas indica que poucas fazem isso hoje.
  • Áreas de tecnologia devem tratar consentimentos como dado regulado: registrar finalidade, prazo e revogação, e garantir conformidade com a LGPD em todo o ciclo.
  • Projetos que dependiam de tokenização de ativos via Drex precisam de plano alternativo. Não há data para a volta da DLT ao projeto.

Erros comuns

Um erro frequente é tratar o Drex como uma moeda digital de varejo prestes a chegar ao público. O desenho atual não prevê acesso direto de pessoas físicas. Outro é medir o sucesso de uma iniciativa de Open Finance pelo número de consentimentos obtidos, e não pela conversão em produtos ou pela melhora na decisão de crédito. Um terceiro é ignorar a revogação: o cliente pode cancelar o consentimento a qualquer momento, e os sistemas precisam refletir isso de imediato.

O que monitorar nos próximos meses

O primeiro ponto é a entrega da reconciliação de gravames, prevista para o segundo semestre de 2026, e a definição da tecnologia que a sustentará. O segundo é o lançamento da portabilidade do consignado federal via Open Finance, previsto para novembro de 2026, que servirá de teste para a extensão a outras modalidades. O terceiro é a agenda do Pix até 2030, que inclui, segundo o BCB, cobrança híbrida, melhorias no Pix Automático e maior integração com o Open Finance. A combinação dessas três frentes definirá quanto do ganho de eficiência do Pix chegará também ao mercado de crédito.

Fontes

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