Infraestrutura Digital

Indústria 4.0 no Brasil: o estágio real da digitalização em números

Indústria 4.0 no Brasil: IBGE mostra IA em 41,9% das grandes indústrias em 2024, mas só 18,9% estão digitalizadas pelo critério da Nova Indústria Brasil.

A indústria brasileira usa cada vez mais tecnologia digital, mas ainda está longe de ser uma indústria 4.0 no sentido pleno. Pela Pesquisa de Inovação Semestral (PINTEC Semestral) do IBGE, 89,1% das empresas industriais com 100 ou mais empregados adotavam ao menos uma tecnologia digital avançada em 2024, e o uso de inteligência artificial saltou de 16,9% para 41,9% em dois anos. Pelo critério mais exigente da política industrial Nova Indústria Brasil (NIB), no entanto, apenas 18,9% das empresas industriais eram consideradas digitalizadas em 2023. A meta oficial é chegar a 25% em 2026 e a 50% em 2033.

Duas réguas para medir a mesma indústria

A distância entre 89,1% e 18,9% não é contradição. As duas medidas olham para universos e critérios diferentes.

A PINTEC Semestral 2024 pesquisou uma amostra de 1.731 empresas de um universo de 10.167 indústrias com 100 ou mais empregados. Basta usar uma tecnologia da lista para entrar no percentual de adoção. Já a Missão 4 da NIB considera digitalizada a empresa que usa, de forma simultânea, ao menos três destas tecnologias: serviços em nuvem, ERP ou CRM, big data, robôs de serviço, internet das coisas (IoT) e inteligência artificial. O alvo da política também é mais amplo e inclui pequenas e médias indústrias.

Na prática, as grandes empresas já compraram alguma tecnologia digital. O desafio está em combinar várias delas e em levar essa combinação às empresas menores.

O que o IBGE mostra sobre as grandes indústrias

A tabela resume os dados da PINTEC Semestral para 2024, divulgados pelo IBGE em setembro de 2025:

Tecnologia digital avançadaEmpresas industriais que usam (2024)
Computação em nuvem77,2%
Internet das coisas50,3%
Inteligência artificial41,9%
Robótica30,5%
Big data27,8%
Manufatura aditiva (impressão 3D)20,3%
Ao menos uma tecnologia digital avançada89,1%

O crescimento da inteligência artificial é o dado mais expressivo. O número de indústrias que usam IA passou de 1.619 em 2022 para 4.261 em 2024, alta de 163%. O uso, porém, ainda se concentra fora do chão de fábrica: entre as empresas que adotaram IA, 87,9% a aplicam em atividades administrativas, 75,2% em comercialização e 73,1% no desenvolvimento de produtos e serviços.

Outro dado da mesma pesquisa ajuda a entender o ritmo. Só 9,1% das empresas investigadas usaram programas públicos ou privados de incentivo à adoção de tecnologias digitais em 2024. Entre as de 500 ou mais empregados, o percentual sobe para 13,9%. Os instrumentos de fomento existem, mas chegam a uma parcela pequena até entre as grandes.

A série da CNI: adoção ampla, variedade baixa

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) acompanha o tema pela Sondagem Especial Indústria 4.0. Na edição com dados de 2021, feita com mais de mil empresas, 69% das indústrias usavam ao menos uma tecnologia digital, contra 48% em 2016. A lista investigada também cresceu, de 10 para 18 tecnologias.

O retrato de maturidade, porém, é modesto. Pela mesma sondagem:

  • 26% das empresas usavam de uma a três das 18 tecnologias listadas;
  • apenas 7% haviam adotado dez ou mais;
  • para 66%, o custo de implantação era a principal barreira interna;
  • para 37%, a falta de profissionais qualificados era a principal barreira externa.

A leitura conjunta com o IBGE é consistente: a adoção pontual avançou, mas a integração entre tecnologias, que caracteriza a indústria 4.0, ainda é exceção.

Nova Indústria Brasil: o que prevê a Missão 4

A Missão 4 da NIB trata da transformação digital da indústria para ampliar a produtividade. Os números principais divulgados pelo governo federal em setembro de 2024:

ItemValor
Meta para 202625% das empresas industriais digitalizadas
Meta para 203350% das empresas industriais digitalizadas
Ponto de partida (2023)18,9%
Recursos totais previstosR$ 186,6 bilhões
Recursos públicos já alocadosR$ 42,2 bilhões
Recursos públicos a direcionarR$ 58,7 bilhões
Investimentos anunciados pelo setor produtivoR$ 85,7 bilhões
Empresas a atender200 mil
Empresas que devem chegar à fronteira tecnológicaao menos 8 mil

A "fronteira tecnológica", no desenho da missão, significa sensores digitais na linha de produção, sistemas interligados por computação em nuvem, uso de big data, IoT, impressão 3D e inteligência artificial. A Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) mantém um monitor público da NIB com o acompanhamento das metas.

Brasil Mais Produtivo: o braço para pequenas e médias

O principal instrumento voltado às empresas menores é a fase de transformação digital do programa Brasil Mais Produtivo, lançada em 2024. O programa prevê R$ 2,037 bilhões para o engajamento digital de 200 mil indústrias, com atendimento direto a 93,1 mil empresas ao longo de três anos. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) coordena a iniciativa, que reúne BNDES, Finep e Embrapii como financiadores e ABDI, Sebrae e Senai, os dois últimos como executores com recursos próprios.

Duas linhas se destacam:

  1. Fábricas Inteligentes: R$ 160 milhões não reembolsáveis, divididos igualmente entre Finep e BNDES (R$ 80 milhões cada), para até 300 projetos de inovação que devem alcançar cerca de 8,4 mil micro, pequenas e médias empresas.
  2. Consultoria em transformação digital para indústrias de médio porte, com 70% do custo subsidiado pela ABDI e expectativa de 1,2 mil consultorias até 2027.

A meta do programa é a mesma da NIB: 25% das empresas digitalizadas em 2026 e 50% em 2033.

Por que a meta de 2026 é difícil

A meta intermediária exige sair de 18,9% em 2023 para 25% em 2026, um avanço de pouco mais de seis pontos percentuais em três anos. Os dados disponíveis sugerem três obstáculos.

O primeiro é o custo, apontado por 66% das indústrias na sondagem da CNI. Tecnologias como nuvem e ERP têm modelo de assinatura acessível, mas sensores, robótica e integração com máquinas antigas exigem investimento inicial alto.

O segundo é a baixa penetração dos programas de apoio. Se apenas 9,1% das indústrias com 100 ou mais empregados usaram algum incentivo em 2024, a proporção entre pequenas empresas tende a ser ainda menor, embora o IBGE não meça esse grupo na PINTEC Semestral.

O terceiro é a integração. A régua da NIB exige três tecnologias simultâneas, e o ganho de produtividade depende de que elas conversem entre si: o sensor alimenta o sistema de gestão, que alimenta a análise de dados. Sem integração, a empresa acumula ferramentas isoladas.

Roteiro prático para uma indústria avaliar seu estágio

Um diagnóstico interno pode seguir a lógica da própria NIB:

  1. Liste quais das seis tecnologias da Missão 4 a empresa já usa (nuvem, ERP ou CRM, big data, robôs de serviço, IoT, IA) e em quais áreas. Se forem menos de três, a empresa ainda não atinge o critério oficial de digitalização.
  2. Verifique se essas tecnologias trocam dados entre si ou se operam de forma isolada. Planilhas intermediárias e redigitação são sinais de integração ausente.
  3. Mapeie onde está a IA, se houver: se só em áreas administrativas, como na maioria das indústrias pesquisadas pelo IBGE, avalie aplicações no processo produtivo, como manutenção preditiva e inspeção de qualidade.
  4. Identifique máquinas e sistemas legados que precisarão de conectores, gateways ou sensores adicionais para gerar dados.
  5. Consulte as linhas do Brasil Mais Produtivo no Senai e no Sebrae da sua região e as chamadas da Finep e do BNDES antes de financiar o projeto com capital próprio.
  6. Defina indicadores de produtividade antes de começar (tempo de ciclo, taxa de refugo, disponibilidade de máquina) para medir o resultado.
  7. Planeje a capacitação da equipe junto com a compra da tecnologia, já que falta de mão de obra qualificada é a principal barreira externa apontada pela CNI.

Erros frequentes nesse processo incluem comprar tecnologia sem problema definido, digitalizar um processo ineficiente sem redesenhá-lo e subestimar o custo de integração com equipamentos existentes.

O que monitorar

O dado decisivo será a próxima aferição oficial do percentual de empresas digitalizadas pelo critério da NIB, que dirá se a meta de 25% em 2026 foi atingida. Vale acompanhar também a próxima edição da PINTEC Semestral, para ver se a IA começa a migrar das áreas administrativas para a produção, e a execução do Brasil Mais Produtivo, cuja meta de 1,2 mil consultorias vai até 2027.

Fontes

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